Para um "novo mundo" sustentável e resiliente, devemos repensar a cidade como refúgio (Dep

Depoimento de Patrick Nossent, presidente do Certivéa

Tradução livre pela Fundação Vanzolini



Para um "novo mundo" sustentável e resiliente, devemos repensar a cidade como refúgio


À medida que um desconfinamento gradual se aproxima, surgem os cenários de um "novo mundo", como as propostas da Convention Citoyenne pour le Climat[1]. Como essa situação nos lembra que somos levados a viver em um mundo em que as crises de saúde e clima vão acontecer, bem como suas consequências econômicas e sociais, o reavivamento não deve, portanto, nos levar rapidamente de volta ao mundo de antes, mas nos projetar a um mundo mais sustentável e resiliente. Um mundo notadamente estruturado para se adaptar às mudanças climáticas. Para fazer isso, vamos repensar os ambientes em que vivemos como refúgios e focar nossos investimentos em favor do desenvolvimento sustentável.



O edifício: o primeiro refúgio contra os choques sanitários ou climáticos


Quando superarmos essa crise de saúde, enfrentaremos três crises: ambiental, sanitária e econômica. No plano ambiental, não vamos esquecer que as mudanças climáticas continuam seu curso intenso. Continuarão sendo gerados os choques que já conhecemos bem: ondas de calor, inundações, tempestades.


Para aqueles envolvidos no edifício, a mobilização deve ser total. Por um lado, na luta contra essa mudança climática. Isso requer redução de nossa pressão exercida sobre o planeta, promovendo modelos baseados principalmente na economia circular, de baixo carbono e de economia de energia e de materiais não-renováveis. Por outro lado, construir edifícios e mais amplamente ambientes resilientes permite que as populações acessem uma melhor qualidade de vida, garantindo uma função de refúgio.


A segunda crise que nos espera a longo prazo também é no campo da saúde. Admitindo a ideia de que outros vírus como esse podem aparecer novamente, precisamos proteger estruturalmente suas propagações. Nesta luta, o edifício também tem um papel central a desempenhar.


O confinamento nos lembrou que a função principal do edifício é de refúgio. Mas precisamos ir além dessa função e melhorar. Precisamos de edifícios moduláveis e saudáveis que se adaptem às nossas necessidades, em tempos de crise, mas não apenas.


Um edifício saudável oferece melhor qualidade do ar interior (ventilação, filtros, climatização por zona, etc.); melhor qualidade da água e melhor qualidade sanitária dos espaços (antibacteriano, de fácil manutenção, etc.). As portas se abrem sem contato, o fluxo de pessoas é separado, os banheiros são limpos automaticamente. Em todos esses aspectos, podemos fazer melhor e devemos fazer melhor graças às inovações de projeto, à escolha de equipamentos e materiais, mas também à integração dos sistemas de monitoramento e gerenciamento de informações.


A flexibilidade de um edifício também é essencial para modular as zonas de acordo com as necessidades: home office, salas médicas, quartos residenciais ou quartos de hospedagem, salas de isolamento e observação, salas de suprimentos etc.


Os edifícios, e, sem dúvida, os edifícios públicos como prioridade, devem ser capazes de se transformar rapidamente: um salão polivalente deve acomodar populações sem abrigo, um centro de convenções pode se tornar um hospital de campanha, uma edificação pode servir como um centro de quarentena.



A diversidade funcional para a “cidade de pequenas distâncias”


Da mesma forma, nossas cidades e bairros devem poder continuar funcionando, mesmo em caso de restrições de deslocamentos, graças a uma variedade de serviços locais. Isso pressupõe que continuemos vigilantes em relação à diversidade funcional, um componente central da "cidade de pequenas distâncias". Um território onde você pode navegar entre trabalho, moradia, escola e lojas sem precisar levar o seu carro. Para isso, é essencial coexistir residências, lojas, escritórios, etc. e acabar com o zoneamento funcional.



Espaços de convivência e discussão, mesmo digitais, essenciais à qualidade de vida da cidade


A qualidade de vida também está intrinsecamente ligada a possíveis interações entre as pessoas. Em toda a França, vimos iniciativas de solidariedade florescerem entre vizinhos, entre gerações. A cidade deve ser capaz de permitir o surgimento de locais de vida e de intercâmbios sociais para que o espírito cidadão e solidário possa viver.


Componentes também essenciais da qualidade de vida, as ferramentas digitais e a boa conectividade de que nos beneficiamos na França tornaram possível em todos os lugares não romper laços durante as últimas semanas: dialogar com os nossos amigos e familiares, trabalhar em equipe, continuar a escola em casa ou até mesmo garantir a continuidade de tratamentos médicos graças à telemedicina.



As 5 alavancas para investir, em nome de um mundo sustentável


Para os governantes responsáveis ​​pela construção dos planos de recuperação, a equação está bastante complexa. Como podemos salvar nossa economia e as milhares de empresas em perigo, sem voltar ao mundo anterior e seu apetite destrutivo pelo planeta?


Vamos começar por não repetir nossos erros e nos recusar a fixar as soluções, como no pós-crise de 2008, na busca do desempenho econômico e financeiro, promovendo modelos de desenvolvimento sustentável e responsável que beneficiem a todos. As medidas econômicas e os auxílios pagos às empresas devem ser vetores de transformação para um mundo sustentável e resiliente. Podemos, portanto, direcionar investimentos em torno de cinco grandes desafios:

  1. Infraestrutura sustentável (mobilidade limpa, energia renovável etc.) para reduzir as emissões de CO2 e melhorar a qualidade do ar a longo prazo. Uma questão central já que a OMS estima que a poluição do ar causa a morte prematura de 2 milhões de pessoas em todo o mundo.

  2. A renovação energética de edifícios: edifícios públicos, de serviços e habitações. Trata-se um benefício para o meio ambiente, para empregos e economia local. Milhares de profissionais em toda a França serão mobilizados. Edifícios eficientes no plano energético geram economias de energia e são refúgios confortáveis, adaptados às mudanças climáticas.

  3. Os centros de economia circular. Em toda a França, vamos investir para permitir a perenização da economia circular. Em todos os setores produtivos, podemos fornecer reparo, reutilização e reciclagem. Quando isso é possível, a reorganização da produção reduz o risco de ruptura da cadeia de suprimentos.

  4. Biodiversidade e agricultura urbana. Esse período de crise nos reconectou à biodiversidade e demonstrou que a agricultura urbana não é uma iniciativa marginal, mas uma resposta a uma necessidade primária dos habitantes das cidades.

  5. Tecnologia digital responsável, nos permitirá economizar energia, compartilhar espaços e serviços, manter idosos em casa em melhores condições...


Devemos fazer essas escolhas para as gerações futuras e podemos fazê-las. Estão previstos investimentos maciços para sair da crise. Vamos direcioná-los para ações que promovam mudanças, e não para aquelas que tentarão nos trazer de volta ao mundo de antes.


Sr. Patrick Nossent é presidente do Certivéa, subsidiária do CSTB, Centro Científico e Técnico de Construção Civil, que é a referência francesa em termos de avaliação e certificação para edifícios não residenciais: escritórios, esportes, instalações culturais ou de saúde, escolas, hotéis, comércio, logística, etc. Sua oferta também visa infraestrutura rodoviária, ferroviária e marítima, elementos essenciais das transições urbanas em andamento e projetos de desenvolvimento urbano. Essas áreas de intervenção colocam a Certivéa no centro dos desafios ligados à cidade sustentável, sendo um dos organismos responsáveis pela criação, manutenção e desenvolvimento da certificação HQE™.


Através de uma cooperação técnica estabelecida em 2007 com o CSTB e Certivéa, a Fundação Vanzolini, em parceria com a Escola Politécnica da USP, trouxe ao Brasil a Certificação HQE™ sob a forma do Processo AQUA para Construção Sustentável para a certificação de edifícios não residenciais, e em 2010, esta cooperação técnica se estendeu também ao Qualitel e ao Cerqual, com os quais a Fundação Vanzolini trouxe ao Brasil o Processo AQUA para certificação também de edifícios residenciais.


Em 2013 os organismos de certificação residencial, Qualitel, e não residencial, Certivéa, se juntaram para criar a Rede Internacional de certificação HQE™, uma unificação de critérios e indicadores para todo o mundo, que cria uma identidade de marca única global, cujo órgão certificador passa a ser o Cerway. Hoje, a Fundação Vanzolini celebra um acordo de cooperação com o Cerway e é a representante no Brasil da rede de certificação HQE™. O Processo AQUA passa a ser conhecido como Certificação AQUA-HQE™, uma certificação com identidade e reconhecimento internacional, aplicada no Brasil exclusivamente pela Fundação Vanzolini.



[1] Tradução livre: Convenção Cidadã para o Clima. Site oficial: https://www.conventioncitoyennepourleclimat.fr



Texto traduzido livremente pela Fundação Vanzolini


Acesso o documento traduzido livremente pela Fundação Vanzolini: https://drive.google.com/file/d/1d1FSGV2oddT8ZKu9s1MeaEghzd5lTDXU/view?usp=sharing


Acesse o documento original publicado pelo Certivéa: https://drive.google.com/file/d/1P7zY0b26Np-WWibKvxRIfkvaH2xfvRyX/view?usp=sharing



CONECTICIDADE

Laboratório de Cidades, Tecnologia e Urbanismo